“Imunes” à crise, municípios ligados à agropecuária mantêm expansão das vagas de emprego

Em dois anos, foram abertas 1.539 vagas de trabalho nos municípios com 30% ou mais do Produto Interno Bruto (PIB) ligados ao setor.

Municípios gaúchos com a economia vinculada à agropecuária passaram praticamente incólumes à crise deflagrada no país nos últimos dois anos.

Levantamento produzido pela Assessoria Econômica do Sistema Farsul, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostra que, nos 274 municípios gaúchos em que a agropecuária responde por 30% ou mais do Produto Interno Bruto (PIB), a geração de empregos seguiu positiva mesmo durante a recessão. Nos chamados “municípios agro” foram abertas 1.539 vagas nos últimos dois anos, resultado da diferença entre admissões e demissões. Enquanto isso, nas demais 223 cidades, incluindo as mais povoadas do Rio Grande do Sul, o saldo foi de 155.950 postos fechados.

— Sim, os municípios agro tiveram problemas. Tinham um nível de emprego elevado e passaram a gerar menos postos, mas ainda assim criaram. Conseguiram se manter imunes à crise — afirma o economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, destacando que nessas cidades há um efeito de transbordamento do resultado da agropecuária nos demais setores.

Nesse sentido, as posições abertas nos municípios com agropecuária forte não se restringem ao setor primário. Em 2016, com exceção da construção civil, os outros segmentos tiveram mais contratações que dispensas. Na percepção do economista-chefe da Farsul, o desempenho evidencia que esses municípios são menos vulneráveis aos períodos de crise em relação aos demais.

Conquista de trabalho próximo da residência

A data ainda segue viva na memória de Faustino Dornelles: 29 de março de 2016. Foi quando estreou na função de operador de máquinas na ADB Alimentos, em Cristal. A abertura de uma unidade da empresa no município situado na metade Sul, no ano passado, fez com que Dornelles realizasse o desejo acalentado havia tempo, o de trabalhar na sua própria cidade. Durante anos, acostumou-se a buscar vagas em outras localidades. Ia aonde havia emprego, até que o trabalho bateu à sua porta.

— Quando começaram as obras da ADB, resolvi largar currículo. Sou de Cristal, moro na Vila Formosa há 28 anos. Agora meu trabalho fica perto da minha vila, a uns cinco quilômetros de casa — comemora o trabalhador, cujo emprego anterior tinha sido como operador de motosserra, nas proximidades de Canguçu.

Dornelles foi um dos 12 contratados pela ADB. Com sede em São Lourenço do Sul, a indústria de arroz abriu filial para secagem e beneficiamento de grãos. O local foi escolhido pela logística. A unidade de São Lourenço está ao lado da BR-116, a cerca de 50 quilômetros da matriz e a 150 quilômetros do porto de Rio Grande.

— É uma filial pequena. O que absorvemos de mão de obra na entressafra foram 12 pessoas, mas estamos nos preparando para a safra. Teremos que dobrar o número de funcionários — projeta o gerente Flávio da Rosa, que também foi contratado durante o processo de abertura da filial.

O caso da ADB não é único em Cristal. Em meio a um período de recessão e fechamento de postos de trabalho no Estado e em todo o Brasil, o município criou 398 novos empregos entre 2015 e 2016, conforme as estatísticas do Caged do Ministério do Trabalho. O saldo é expressivo para uma cidade que possui pouco menos de 8 mil habitantes.

Agronegócio impulsiona campeão na criação de empregos

Mesmo com menos de 30% de sua economia ligado à agropecuária, Cruz Alta foi o campeão em geração de empregos no Estado em 2016, graças ao setor primário. Das 1.039 vagas criadas no município do Noroeste, 932 foram neste segmento, conforme o Caged. Com uma série de empreendimentos voltados à produção de sementes, armazenagem e transporte de grãos, manteve o mercado de trabalho aquecido.

Apenas a Sementes Aurora gerou mais de 20 vagas em 2016, ampliando o quadro para 110 funcionários. Romilton de Bortoli, sócio-gerente da empresa, conta que foi necessário contratar para dar conta da demanda por sementes e por soja, milho e trigo produzidos no local.

— Não dispensamos ninguém nos últimos anos, aumentamos a produção de sementes e, inclusive, estamos ampliando o número de funcionários — detalha Bortoli.

O estudante de Ciências Contábeis Dieferson Henricq foi um dos recrutados pela empresa. Em um ano em que milhões de brasileiros perderam seus trabalhos, o jovem de 20 anos pôde até escolher o emprego que mais lhe agradasse. Deixou o ofício em um escritório de contabilidade para exercer a função de auxiliar administrativo na Aurora.

Não foi só em Cruz Alta que o setor primário elevou o nível de emprego. Nos 497 municípios do Estado, o segmento fechou 2016, entre admissões e demissões, com 1.240 posições geradas. No desempenho geral, foram fechados 57.266 postos.

No agronegócio, até mesmo atividades que vinham cambaleantes demonstram sinais de recuperação. É o caso do setor de máquinas e implementos. No segundo semestre de 2016, os fabricantes geraram 133 empregos, algo que não ocorria desde o primeiro semestre de 2014, segundo levantamento da Fundação de Economia e Estatística (FEE).

— É um crescimento marginal, mas tudo indica que deve ter continuidade — sinaliza o economista da FEE Sérgio Leusin.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), Claudio Bier, o mais importante é o fato de as empresas terem interrompido o ciclo de demissões. Após queda de 4% nas vendas em 2016, a expectativa é de que a comercialização de equipamentos cresça até 12% nesta temporada.

Estado deve colher bons resultados

O bom desempenho dos municípios com economia baseada na agropecuária e a expectativa de safra cheia devem embalar os negócios na Expodireto-Cotrijal, de 6 a 10 de março, em Não-Me-Toque, no norte do Estado.

No levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em fevereiro, a projeção é de uma colheita de 29,6 milhões de toneladas de grãos da safra de verão 2016/2017. O resultado representaria incremento de 0,1% em relação a 2015/2016. Contabilizando outras culturas, o montante total pode chegar a 32,3 milhões de toneladas, 1,9% a menos que na temporada anterior.

— A expectativa para essa safra é a melhor possível. O trigo foi muito bem no inverno, o arroz está começando a colheita com perspectiva de desempenho normal. O milho desenvolveu com boa produtividade e a soja deve ter a melhor safra de todos os tempos — relata Carlos Roberto Bestétti, superintendente da Conab no Estado.

Com 60% da colheita realizada no RS, o milho deve apresentar pequena queda na produção, estimada em 4,4%. Já a soja, que tendia a uma queda de 5,1%, deve ter sua projeção revisada para cima. Mesmo assim, Bestétti adota a cautela e considera ainda cedo para afirmar se haverá safra recorde.

— O cenário é animador. O produtor plantou bem e vai colher bem — diz o assistente técnico da Emater-RS, Alencar Paulo Rugeri.

Ele ressalta que o clima tem sido favorável para as lavouras gaúchas e nenhuma praga afetou as plantações até o momento. Na percepção de Rugeri, o preço dos grãos no mercado é o único fator que pode decepcionar, mas ainda assim é um aspecto no qual o produtor não tem ingerência direta.

Reportagem de: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2017/03/imunes-a-crise-municipios-ligados-a-agropecuaria-mantem-expansao-das-vagas-de-emprego-9739961.html